PÔ JUCA!


Segue abaixo mensagem enviada ao blog do jornalista Juca Kfouri. Boa leitura.

Caro Juca,

Pessoalmente admiro seu trabalho, sempre competente e honesto (é uma pena que seja corintiano, típico vizinho indesejável à qualquer são-paulino). Mas penso que sua coluna na Folha do último domingo ("Meu vizinho Torero") merece duas sinceras observações.

Nada contra o debate com seu vizinho de coluna, José Roberto Torero, sobre os campeonatos estaduais (a propósito, como é genial o santista, que texto!). Com certeza, o futebol e a crônica esportiva do país seriam outros se metade dos profissionais tivesse a lucidez de ambos.

O problema está no conselho dado ao Torero, emitido no último parágrafo do texto: "Eu, se fosse você, mandava o seu Manoel e o pequinês do 204 para Rio Preto e mudava de opinião".

Ainda que o seu Manoel tenha infernizado a vida do Torero com sua reforma por 4 meses, 12 dias, 7 horas e 20 minutos, e que o pequinês do 204 não deixe o santista sonhar em paz, nada justifica mandá-los para Rio Preto como se fosse uma punição ou, pior, uma extradição.

"Sertão desconhecido", "terrenos ocupados por indígenas ferozes", "boca do sertão", "fim de linha"; estes são alguns dos termos empregados ao longo do tempo para designar a cidade que hoje ultrapassa os 400.000 habitantes. Atualmente, Rio Preto é capital e referência para vários municipios, não apenas do noroeste paulista, mas também de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás.

Sem dúvida, colecionando desenvolvimento e contradições, Rio Preto desponta como a capital da "boca do sertão", isto é, como a primeira grande cidade rumo ao centro-oeste do país, cujo principal destino é Brasília (1015 Km separam São Paulo da capital do Brasil; de Rio Preto são "apenas" 738). Portanto, tratá-la como sinônimo de "fim de mundo" - como já foi "fim da linha" um dia - não mais condiz com a realidade.

Na verdade, essa concepção paulistana de encarar a cidade de São Paulo como o umbigo do Brasil - bem ou mal, exposta pela coluna de domingo - é uma falácia. Para espanto de muitos paulistanos, sim, existe vida, sociedade, civilização para além das Marginais, basta olhar.

E o segundo problema decorre exatamente deste "paulistanocentrismo", com perdão do neologismo. Seu debate com Torero deixa claro isso quando aborda - e valoriza - somente o ponto de vista dos grandes clubes da capital, para justificar, em seguida, sua predileção por torneios regionais e nacionais com boa dose de custo-benefício.

Mas Juca, e os "pequenos"? Nem todos os clubes do interior são despresíveis, mero amontoado de mercenários - leia-se empresários, jogadores e dirigentes - ou "empresa de fachada" para transações ilícitas. Muitos dos "pequenos" que disputam o Paulista nas séries A1, A2, A3... fizeram a história do futebol paulista e brasileiro. Eles têm história!

E veja, não me refiro ao esquadrão tal ou qual de determinada época. Falo da relevância histórica e social destes clubes para afirmação do futebol como elemento importante da cultura popular do país. A Globo talvez não saiba - ou finge não saber -, mas o sucesso obtido na manipulação do futebol como fonte de nossa unidade nacional a cada Copa se funda na atração exercida pelos clubes em várias localidades do interior do Brasil, muitos desde os primeiros anos do século 20, alguns ainda em finais do 19.

Bom exemplo disso são as memórias de Osvaldo Tonello sobre o futebol em Rio Preto. "Quando aqui cheguei com meus doze anos, em 1919 e ainda moleque, observei passeando pela cidade, que não havia muitos jogos de futebol, eram praticamente inexistentes, não havendo campos", descreve Tonello, que continua: "O único campo provisório... estava situado em meio ao pasto de bois, no sítio do Zé Pedro, todo aberto, sem conservação e com estrume por todos os lados... e para haver jogo, era preciso antes fazer a limpeza e delinear as linhas do campo com cal".

"As disputas a título eram realizadas com os distritos vizinhos de Cedral, [Engenheiro] Schimitt, Ribeirão Claro [atual município de Guapiaçu], Mirassol, Potirendaba...como times de várzea. Com meus irmãos, ainda jovens, assistimos a alguns jogos lá, que eram realizados espaçadamente. As torcidas se postavam em pé, dos lados, e de preferência atrás do gol", relembra Osvaldo.

Como se nota, fundado em 1919, o Rio Preto Esporte Clube ainda não tinha campo, dispondo do "campo provisório" no sítio do Zé Pedro. Mas em 1924, segundo as memórias de Tonello, "chega a Rio Preto um grande parque precisando de boa área, o que não havia na cidade. Foi então cedido um terreno pelo proprietário Vitor Bastos... Com a saída do parque, o terreno fica vago e limpo. Como o Rio Preto Futebol [Esporte] Clube não tinha ainda o seu campo, o Coronel Bastos, entusiasta pelo futebol, faz a doação desse terreno para o Clube construir ali, o seu campo".

E assim se fez o Estádio Coronel Victor Brito Bastos, que abrigou os jogos do rio Preto até 1964, quando foi demolido para a construção, em outro local da cidade, o Estádio Anísio Haddad. Ainda de pé, o "Rio Pretão" até hoje recebe os jogos do Glorioso, sendo chamado de "maior estádio do mundo" pelos torcedores do América FC , já que a torcida do Rio Preto teima em não lotar seu estádio.

Contudo, voltando a 1924, o coronel impôs uma condição, "de que não passasse um ano sem disputas senão o terreno voltaria ao seu doador, prova do pouco futebol existente na época". A partir de então, "cresce o entusiasmo da população pelo futebol e o Rio Preto passa a disputar com os clubes das cidades do interior paulista" (Osvaldo Tonello. São José do Rio Preto - Memórias, 2ª ed., 2006, p. 61).

Hoje, o Rio Preto Esporte Clube disputa a série A2 do campeonato paulista.

Por isso, concordo com o romantismo de Torero e entendo que a manutenção dos estaduais é vital para que clubes como o Rio Preto EC resistam ao tempo e aos excessos da profissionalização do futebol. São instituições que fazem parte da história do futebol, e por que não, da cultura popular do país.

No estado de São Paulo, em que pese todas as críticas à Federação Paulista de Futebol, temos 5 divisões organizadas, com torneios regulares, que, na prática, mantém vários clubes em atividade durante o ano e garante trabalho para outros tantos atletas, técnicos, preparadores, funcionários... , tidos pelo "grandes" como de "segunda classe".

Enfim, meu caro Juca, creio que o conselho correto ao Torero deveria ser o seguinte: "Eu, se fosse você, deixava o seu Manoel e o pequinês do 204 em São Paulo, corria para Rio Preto e mantinha sua opinião".

Pô Juca!

Cordialmente,

Clayton Romano
Historiador - Editor do
IBORUNA21